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Na Inglaterra dos séculos XVI ao XIX, as ovelhas devoravam os homens; no século XXI, será a vez da Inteligência Artificial (IA)?

“Os carneiros, antes animais tão delicados e inofensivos, tornaram-se homens.” (MORUS, 1997)¹.

Morus (1516/1997) afirmou que as ovelhas, antes tão doces, tinham se tornado vorazes ao ponto de devorarem os homes.

O capitalismo é ontologicamente violento, e para atingir seus objetivos qualquer caminho e qualquer sacrifício impostos aos trabalhadores e trabalhadoras, é aceitável, exceto quando a classe trabalhadora aprende a dizer não.

O autor se referia a um processo de expulsão e proletarização de imensas massas humanas.

Essa violência de classe visava, ao mesmo tempo, tornar a terra propriedade privada, para obtenção da matéria-prima principal para a nova indústria, a lã, e a criação do mercado interno de trabalho.

A história econômica nos revela quanto esse processo que se arrasta do século XVI até o XIX modificou a estrutura econômica e quanto sofrimento atingiu em cheio e precarizou o trabalho e a vida daquelas pessoas.

O “cercamento dos campos” provocou o deslocamento de milhares de pessoas.

O deslocamento desses homens, mulheres e crianças era algo inteiramente novo para uma população que era pobre, contudo, tinha a estabilidade da terra e na terra, além do que o sistema de produção pré-capitalista era paternalista por uma cultura milenar encimada pela Igreja.

Mesmo no século XVIII, ainda predominava uma economia oposta aos mercados capitalistas, denominada por Thompson (1971) de Economia Moral das multidões.

A economia moral das multidões

“A economia moral da multidão” é um conceito clássico criado pelo historiador inglês E. P. Thompson em 1971 para explicar os protestos populares e revoltas de fome na Inglaterra do século XVIII.

Ela se constituía em um conjunto de normas costumeiras que norteavam as relações econômicas entre as classes através de direitos e deveres morais recíprocos.

O que o capitalismo destruiu não foi fez foi derrubar esse conceito para poder explorar as classes trabalhadoras sem freios de qualquer espécie.

É nesse contexto que o capitalismo surge “coberto de lama e sangue” (Marx).

Da mesma forma que os cercamentos das terras levaram milhares de pessoas a perambular pelas estradas buscando meios de sobrevivência, incluindo o roubo ou furto, que eram duramente punidos por leis assimétricas, incluindo a pena de morte.

Assim, as ovelhas ocupavam o lugar dos homens e mulheres.

Hoje é a Inteligência Artificial (IA) que desloca os trabalhares e trabalhadoras ocupando, e isso é apenas o começo, o espaço laboral de pessoal administrativo, de atendimento em geral, redação e programação.

Se a produção de ovelhas trouxe muita riqueza para os proprietários de terras, ela empobreceu ao extremo os pobres da época. Hoje observa-se um crescendo de acumulação de riqueza nas mãos das Big Techs.

Tanto no passado quanto no presente a tecnologia não é neutra, também não precisa ser um mal permanente.

Se ela cria novas funções, como os cercamentos criaram a classe operária moderna, o que a IA está destruindo e o que está criando?

Sabe-se com certeza que as fábricas pós-modernas (os data centers) empregam poucas pessoas.

A resistência às máquinas

Durante a Revolução Industrial inglesa e o avanço tecnológico na forma de novas máquinas surge a resistência dos Luditas, que destruíam as máquinas não por elas, mas sim pelo que representavam, a saber, a redução salarial e a perda de direitos, antes garantidos.

Registre-se duas questões importantes:

(a) Ludd não era uma pessoa real, mas um nome ficcional usado para agregar os revoltosos e garantir o anonimato, em uma prova histórica de que os trabalhadores não precisam dos “sabichões” intelectuais para travar suas lutas;

(b) a maioria dos luditas eram tecelões e artesões altamente qualificados que operavam os teares manuais.

As formas de resistência do passado incluíam a invasão e destruição das máquinas.

A forma principal de repressão foi determinada pelo zeloso governo britânico que instituiu a pena de morte e mandou o exército para reprimir os trabalhadores.

No presente, e contra a ovelha pós-moderna (IA), estão formando barreiras, escritores, professores, jornalistas e outros trabalhadores intelectuais.

No caso atual, também não se trata de ódio contra o avanço das tecnologias de informação, mas coloca-se contra o treinamento de modelos de inteligência que operam sem consentimento, sem crédito de autoria e sem o devido pagamento.

As ações de resistência vão desde os processos judiciais por direitos violados, greves e campanhas por políticas regulatórias do poder público.

O problema é que as “máquinas” da atualidade não estão em um galpão onde tanto podem ser protegidas como podem ser atacadas; elas estão fragmentadas pela superfície do planeta e estão nas nuvens.

O maior problema é se as ações dos trabalhadores falharem, a Inteligência Artificial fará o mesmo que o tear mecânico fez no passado, ou seja, transformará profissões de respeito e bem remuneradas em uma mera engrenagem na dinâmica destrutiva do capital.

Dos cercamentos à Inteligência Artificial

No passado, a aceleração dos cercamentos deveu-se à explosão de demanda pela lã, matéria-prima da indústria têxtil.

Ou seja, não havia estímulo aos grandes proprietários rurais para manter as famílias camponesas produzindo bens de subsistência comparativamente à lucratividade da criação de carneiros, que exigia poucos trabalhadores no manejo dos rebanhos.

Assim, alimentos era uma produção ineficiente.

No atual estágio do capitalismo, é a busca por margens maiores de lucros.

Um trabalhador qualificado exige bons salários, condições respeitáveis de emprego, férias anuais e bônus por produtividade, enquanto a Inteligência Artificial, uma plagiadora voraz, processa milhões de informações por segundo a um custo privado mínimo.

Ao fim, o objetivo é substituir milhares de seres humanos autônomos por um mecanismo produtivo e perfeitamente controlável.

Destaque para o fato que, do século XVI ao XIX, a ação dos detentores de riqueza destruiu o tecido daquelas sociedades, venceu com a ajuda do Estado e com a violência infrene e absurda do capitalismo.

Desse modo, as tradições, os costumes em comum, os valores foram postos por terra.

Empurrado sem nada de seu para as cidades sujas e para um trabalho repetitivo e pessimamente remunerado.

Esses trabalhadores foram a base do enriquecimento dos patrões e nunca algumas gerações sofreram tanto para benefício de seus algozes.

A “Grande Plagiadora”

Nos tempos atuais, da “Grande Plagiadora” ocorre um processo de degradação cognitiva.

Em segundos se revela na tela o que levou anos e anos de estudos e pesquisas.

A perda de identidade laboral gera sensações de perdimento e isolamento psíquico.

Se no passado das origens do capitalismo, o poder político estava concentrado em um parlamento e em uma monarquia controlada pela classe dominante inglesa que votava sempre em benefício próprio, apesar dos discursos onde era dito que a situação dos pobres deveria ser vista com cuidado, as leis eram draconianas e reprimia brutalmente qualquer um que se colocasse contra a ordem dominante.

Nos tempos da “Grande Copiadora”, antes como agora existe um descompasso imenso de poder.

Fato é que as empresas de tecnologia detêm mais poder econômico e capacidade de processamento de dados do que muitos Estados Nacionais.

O contexto político atual mostra governos sempre atrasados, tentando, tantas vezes nem isso, regular a tecnologia, mas frequentemente cedendo às Big Techs sob o argumento de que “restringir a operação da IA é inibir o progresso econômico”².

O Estado oscila entre a proteção da sociedade e a tentativa de que seu país não fique para trás na corrida geopolítica³.

As novas “ovelhas”

As pacíficas ovelhas inglesas deixaram uma lição fundamental e permanente: a tecnologia não é neutra, mas não deve ser considerada como um mal em si ou como a “encarnação da maldade”, o mal é o capitalismo e suas políticas de concentração de renda e riqueza.

As ovelhas são parte do processo de expansão da industrialização britânica, da transformação da Inglaterra na maior potência mundial e do enriquecimento de sua burguesia.

Contudo, são parte inseparável de uma transição paga com o sofrimento extremo de suas classes trabalhadoras, com séculos de violência e matança indiscriminada.

Para este século fica a compreensão de que a IA pode criar, mais uma vez, riqueza e progresso para poucos.

Mas a questão essencial e que deve mobilizar as energias das gerações futuras é: quem terá o controle dessas novas “ovelhas” e o que será feito com aqueles que sempre ficam do lado externo das cercas?

Referências

1.Fonte: MORUS, Thomas. A Utopia. Porto Alegre: L&PM Editores, 1ª Ed. 1997.

2.Os principais candidatos à Presidência do Brasil, neste ano, convergem na defesa de incentivos à instalação e expansão de data-centers (centros de processamento de dados) no país, impulsionados pela demanda por inteligência artificial (IA) e pela disponibilidade de energia renovável.

3.“Daqui para frente, será (a Inteligência Artificial) oficialmente chamada de superinteligência. Mudamos o nome porque o uso da palavra ‘artificial’ faz a inteligência parecer falsa” (Donald Trump, setembro de 2026). Dessa forma a “Grande Plagiadora” será promovida a condição de Super, enquanto os homens serão reduzidos ao máximo minimalismo conceitual.

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Professor Dr.

Glaudionor Gomes
Barbosa

Professor e pesquisador da UFPE em economia, história econômica e desenvolvimento.

© 2026 Glaudionor Gomes Barbosa