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Anotações para quando a bolha da inteligencia artificial (IA) estourar

“Os especuladores podem não fazer mal quando são apenas bolhas em um fluxo estável de empresas. Mas a situação torna-se séria quando a empresa se transforma em uma bolha no turbilhão da especulação. Quando o desenvolvimento do capital de um país se torna subproduto das atividades de um cassino, o trabalho corre o risco de ser malfeito.” (John Maynard Keynes). “O mundo está quase todo parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado. Eu anexaria os planetas se pudesse; penso sempre nisso. Entristece-me vê-los tão claramente, e ao mesmo tempo tão distantes”. (Cecil Rhodes)

Marx, Keynes e o Capital especulativo

Segundo Marx o Capital Portador de Juros é aquele Capital-dinheiro que é emprestado com o objetivo de retornar ao dono com um acréscimo (juros). Assim, o capitalista industrial precisa acumular capital (investir) e o Banco deseja valorizar seu dinheiro. Este dinheiro emprestado entra no processo produtivo para comprar máquinas, equipamentos, matérias-primas, materiais acessórios e contratar trabalhadores.

Contudo, o capital que porta juros é, também, o capital fictício que se autonomiza circulando no mercado financeiro, com o preço variando independentemente do capital real. Fato é que o capital portador de juros é uma forma fortemente fetichizada porque faz parecer que o dinheiro gera dinheiro sem o concurso do trabalho humano, a saber, (D → D’), pulando a etapa da produção.

Entretanto, diz Marx que, para o juro existir na realidade, o dinheiro emprestado precisa funcionar como capital real, precisa descer para aquela esfera onde “é proibido a entrada de pessoas estranhas ao serviço”. Fictício não se refere a algo falso, mas a algo que não é real. O capital fictício emerge quando os direitos a essa renda futura, tais como ações, títulos de dívida e contratos, ganham vida própria e passam a ser comprados e vendidos no mercado financeiro.

O caráter fictício tem origem em duas características: (a) duplicação do capital, na medida em que o capital real existe objetivamente na fábrica, enquanto o título circula, arrogantemente e com ares de ser o principal, no mercado; (b) a valorização é do título, assim, quando a taxa de juros cai, o valor do mercado do título se eleva, independente do que acontece no lado real da economia.

Para Keynes, a economia é movimentada pelos gastos reais de investimento ao gerar emprego e renda. A especulação em níveis baixos não representa um problema maior, contudo quando o capital financeiro sai de controle e deixa de ser um servo do capital produtivo, o problema pode ser sério.

O mercado dos títulos não pode não pode existir com muita incerteza, com os jogos de azar. O que dita o ritmo e a magnitude da economia é a demanda efetiva. O empresário investe comparando duas variáveis-chaves que são a taxa de juros e a Eficiência Marginal do Capital. Esta última ´pode ser definida como o retorno que o capitalista tem a esperança de receber do novo bem de capital ao longo de sua vida útil, depois de descontados os custos correspondentes.

Por outro lado, a taxa de juros define não o preço do dinheiro, como afirma a economia vulgar, porém o custo de oportunidade do dinheiro. Desse modo, quando eles estão altos, os investimentos produtivos se reduzem e quando baixos os investimentos se elevam, isso sempre em comparação com a eficiência marginal.

Considerando que o futuro é incerto e desconhecido, as decisões de investimentos, também, ficam subordinadas aos estados de ânimo dos capitalistas ou como define o autor, ao “espírito animal” dos empresários, tornando o investimento muito volátil e instável.

O capitalismo é ontologicamente instável e essa instabilidade é o resultado de fatores psicológicos que vão desde a disposição dos empresários até o estado de confiança geral.

Não há autorregulação, pois as decisões são um complexo de variáveis. Destaque-se, em Keynes, dois movimentos opostos: (a) quando os empresários estão otimistas confiantes, eles ignoram possíveis riscos e produzem ondas expansivas, o investimento sobe e com ele a renda e o emprego no agregado; (b) se estão desconfiados quanto aos lucros futuros, eles deprimem o investimento e consequentemente caem o emprego e a renda.

São esses comportamentos que geram as curvas de crescimento (expansão) ou decrescimento (retração) do 3 capitalismo. Esses dois movimentos têm como principal contratendência o Estado agir como um estabilizador econômico, atua gastando nas crises e controlando os excessos nos momentos de euforia.

É a economia realmente existente, estúpido!!

Só os professores de economia (ciência) autista acreditam que a economia (produção e circulação de Mercadorias) se auto regula.

No caso da Inteligência Artificial, o padrão de interferência do Estado não é, apenas, de natureza macroeconômica, mas principalmente geopolítica.

Observe-se que o investimento crescente (Boom) continua sendo puxado para cima porque tanto os Estados Unidos quanto a China tratam a IA como uma questão de segurança nacional, semelhante a chamada corrida espacial da Guerra Fria que colocou em campos opostos o mesmo Estados Unidos e a União Soviética.

A questão é que a geopolítica passa a comandar as decisões econômicas Assim, uma das consequências desse investimento descolado de rentabilidade é que por menor que seja, o retorno financeiro liquido privado no curto prazo, os governos agem como garantidores de última instância dessa soberania tecnológica.

Quando o Presidente da principal potência imperialista se coloca à frente da defesa de qualquer coisa, percebe-se a importância dessa no contexto global.

Trump está na defesa das empresas de IA para muito além dos interesses promíscuos dele e dos seus. Vamos aos dados.

Durand no artigo “Por que a bolha de IA apavora os mercados”, publicado no Boletim Outras Palavras de 12 de março de 2026 argumenta que a valorização das empresas ligadas à inteligência artificial no mercado acionário cresceu dez vezes na última década. Das dez empresas dominantes do mercado, nove são norteamericanas.

Somadas elas equivalem a mais da metade do PIB dos Estados Unidos. Pode-se dizer que o “espirito animal” dos capitalistas do setor tornou-se mais irracional que a normalidade dos capitalistas que fabricam geladeiras.

É uma boa promessa de caos. Revelando uma certeza que se reforça com o tempo: São duas, as coisas que os capitalistas fazem com absoluto sucesso, maximizar lucros e acelerar as crises que viriam sem a inestimável ajuda deles.

Usando uma imagem popular, quanto mais alto o coqueiro maior a queda, ou seja, nesse contexto quanto maior o Boom, maior o Crash. As crises e depressões 4 ensinou isso com frequência, contudo, os pugilistas alugados da burguesia sempre olham para o lado oposto. Assim, segundo Durand:

O investimento fixo no setor é tão gigantesco que foi o principal motor do crescimento dos EUA em 2025. O treinamento e a operação de modelos de IA exigem uma enorme expansão física de data centers, equipamentos de computação, sistemas de refrigeração, hardware de rede, conexões e fornecimento de energia. Prevê-se que as empresas de tecnologia gastem impressionantes US$ 5 trilhões nessa infraestrutura custosa – ainda majoritariamente concentrada nos EUA – para atender à demanda prevista entre agora e 2030. (Durand, 2026)

A questão é que a Inteligência Artificial não se sustenta no ar, apesar de sua aparente leveza¹. Um data center assemelha-se a uma fábrica moderna que não transforma matérias primas em mercadorias físicas, mas em vez da transformação tradicional ele transforma energia elétrica e dados brutos em serviços digitais, a saber, sites, streamings, transações bancárias e inteligência artificial.

Enquanto a fábrica normal gera como subprodutos como fumaça, esgoto industrial e amputados; a atual produz em abundancia, calor que necessita de muita água para ser dissipado, sucatas e adoecimento psíquico.

Além do calor e do uso abusivo e sem taxação dos recursos hídricos, a contabilidade das big techs não estão fechando como esperam seus donos, gerentes e os economistas autistas.

Ocorre que para atender às suas necessidades financeiras crescentes, inclusive aquelas oriundas da manutenção de preços elevados para garantir a valorização, o setor transitou de um modelo simples de fluxo de caixa para um financiamento por ações para o endividamento.

No mundo das aparências onde reina oportunidades viáveis, Hayek, Friedman e equilíbrio geral, essas mudanças de fluxo de caixa para endividamento crescente, longe de refletir chances de lucros e prosperidade, geram os mesmos produtos financeiros exóticos que indicam o contrário do otimismo nonsense.

 

Lembrando a crise ponto.com

A crise ponto.com, também conhecida como a bolha da internet, aconteceu no final do século passado, com explosão no ano 2000, verificou-se uma forte e persistente especulação resultado da injeção de bilhoes de dólares em empresas de internet sem nenhum parâmetro na economia real.

O sistema colapsou em março de 2000 representando juntamente com o 11 setembro de 2001, a entrada triunfante e festiva do capitalismo no século XXI. O índice Nasdaq que havia sofrido um Boom imenso cai num Crash espetacular levando para lona centenas de empresas, destruindo emprego em massa e reduzindo renda.

Enfim derretendo montanhas de capital, constante e variável, produtivo e fictício, como ensinou Marx. Desde algum tempo que se argumenta que há diferenças entre 2000 e 2026, pois os perfis, a escala e o escopo das empresas envolvidas são diferentes, o que não se pode negar.

Afinal, a História não se repete, e quando se repete é como farsa², apesar de que o capitalismo em certo sentido é uma farsa gigantesca, grotesca e que se repete e se repetirá até que seja parado.

As firmas do setor de tecnologia digital eram menores e dependiam muito do mercado financeiro, inclusive, em muitos casos, para o capital de giro.

Hoje, as empresas do setor são gigantescas e com fundos próprios, é preciso relativizar essa afirmativa, além do que a concentração centralização do capital são mecanismos aceleradores e oportunizadores das crises.

Recorrendo a ciência física, mesmo com a mesma aceleração é sabido que um corpo de maior massa cai fazendo maior estrago. Atualmente, bilhões de dólares são investidos em infraestrutura (chips, data centers), muitas vezes sem retorno financeiro claro.

O hiper investimento, como a hiper ventilação, pode matar o paciente.

Tanto no passado na euforia da crise da ponto.com, como na atualidade com a bolha da Inteligência Artificial existe investimento em excesso.

Trata-se de o que ficou conhecido como exuberância irracional. Na verdade, toda exuberância capitalista é irracional. A crise virá com certeza. Quem viver verá.

Referências

  1. Os Investimentos Fixos referem-se aos bens duráveis, infraestrutura e recursos físicos necessários para iniciar ou expandir uma operação (como computadores, servidores, móveis e imóveis). Quando se integra a Inteligência Artificial (IA) a esse escopo, está-se falando tanto do investimento de capital para estruturar a IA dentro de uma empresa quanto do uso da IA para otimizar a compra desses ativos
  2. Exceto para uma parte da antiga esquerda, outrora radical, hoje confusa e vacilante que comprou do próprio Donald Trump a ideia de uma poltiica externa baseada na doutrina Monroe, ou seja, a doutrina Dondoe, um neologismo barato, narcisista e historicamente anacrônico de um dos mais autoritários dos governantes estado-unidense.

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Professor Dr.

Glaudionor Gomes
Barbosa

Professor e pesquisador da UFPE em economia, história econômica e desenvolvimento.

© 2026 Glaudionor Gomes Barbosa